terça-feira, 1 de maio de 2012

Migalhas do capitalismo


E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.



"Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção."

Vinícius de Morais, Operário em Construção (trecho)


    O texto citado diz respeito a uma possível resposta do trabalhador aos avanços do capitalismo. Essa resposta, sabemos, não foi dada. Em seu lugar, aceitamos a oferta do capitalista (aqui comparado à figura do Diabo). Podemos ver isso com as "conquistas" dos trabalhadores no decorrer do século XX. Mais do que significarem uma conquista do trabalhador, significaram uma conquista do capitalismo. Ora, somente por meio da criação de dispositivos que permitissem aos trabalhadores continuarem seu trabalho, o capitalismo poderia equacionar suas contradições internas. Nesse sentido, tudo que conhecemos como melhorias e avanços nas relações trabalhistas são conquistas e avanços do capitalismo. As leis trabalhistas, a redução da jornada de trabalho, a criação de sindicatos, etc. Quando no poema o capitalista oferece ao operário várias melhorias para as condições de seu trabalho, o operário, que aí já é operário construído, não mais em construção, ele diz não. E diz não justamente por a oferta ser absurda, já que o que lhe era oferecido eram apenas migalhas diante de tudo o que ele via e isso mesmo já era dele. No nosso caso, nosso operário histórico ainda está em construção. Ele não sabe que as coisas são dele. Por isso aceitou as migalhas que o capitalismo lhe ofereceu. 
    O capitalismo é uma estrutura que funciona à revelia de vontades individuais. Quando menciono o capitalista, principalmente quando comparado ao Diabo, não pretendo fazer nenhum julgamento moral. O empresário particular não é "o capitalista". O capitalista não é uma pessoa, é um papel que pode ser desempenhado por qualquer um. Esse papel é importante para a peça e para o teatro como um todo, mas pode não guardar nenhuma relação com o individuo que o desempenha. Desse modo, também os trabalhadores são papeis representados por indivíduos que, para atuarem no capitalismo, precisam desempenhar justamente esse papel. O capitalista não se contrapõe ao trabalhador. Ambos são personagens necessárias para a estrutura capitalismo acontecer. Há um equilíbrio que vai sendo criado na relação entre o trabalhador e o capitalista. Esse equilíbrio responde a um bem maior: a manutenção do capitalismo. As exigências de melhores condições de vida e de trabalho não visam abolir ou revolucionar o capitalismo, na verdade partem precisamente de sua aceitação. Tais exigências respondem, então, às necessidades do próprio capitalismo, para a sua perpetuação. As contradições gritantes apontadas por Marx foram minimizadas (ou maquiladas) por esses “avanços trabalhistas”. Esses avanços e vitórias, aliás, são do próprio sistema capitalista que soube abarcar o que lhe atacava e neutralizar sua força. Nesse sentido, todas as formas de luta para minimizar explorações e participar das conquistas do capitalismo são veículos de equilíbrio que atendem às necessidades de remodelação para perpetuação. Quando o capitalista cede, seja ao operário, seja ao meio ambiente, ele cede atendendo a uma requisição do próprio capitalismo para que ele se perpetue. O não cuidado com o operário poderia levá-lo a um estado de descontentamento extremo que o faria recusar-se a ser explorado. Nenhum outro modo de produção mostrou tanta flexibilidade quanto o capitalismo. Por isso ruíram e, quase sempre, de forma violenta pela tomada do poder por quem já tinha força suficiente para deixar de ser explorado e passar a explorar. Do mesmo modo, o não cuidado com o meio ambiente pode impossibilitar o capitalismo, pela falta de matéria prima. O cuidado com o operário e com o meio ambiente atende, assim, a duas requisições de manutenção do sistema capitalista: por um lado permitem a manutenção do status quo, por outro agregam valor ao produto de comercialização: ele passa a ter o selo de responsabilidade social e ambiental, tornando-o mais lucrativo.

Por que só é possível filosofar em Grego e Alemão?



A referida frase foi escrita por Heidegger em sua tese de doutoramento. Ela data, portanto, de quando ele ainda não havia conquistado seu lugar no pensamento do século XX. Esse fato talvez seja suficiente para não darmos tanta importância a essa afirmação e deixarmo-la presa ao rol dos preconceitos dos filósofos. Nada obstante, esse doutorando se tornaria no pensador mais importante do século XX e, por força desse tornamento, tudo o que ele dissesse ganharia em relevância. Desse modo, não podemos fechar os olhos a essa afirmação; devemos investigá-la conferindo-lhe o respeito consoante a importância de quem a disse.
Nossa investigação é bastante limitada. Não analisaremos minuciosamente nem o idioma alemão nem o grego, sequer tentaremos dizer o que seja filosofar. Procuraremos somente descobrir de dentro da frase o encoberto nela. Na seqüência desse sentido, vejamos agora o que nos pode dizer essa frase. Primeiro, ela nos diz que filosofar é possível, depois que essa possibilidade só se concretiza em grego e alemão. Quanto à possibilidade do filosofar, não nos é difícil encontrar-lhe corroboração, haja vista os filósofos. Contudo, quanto a essa possibilidade só se concretizar em grego e alemão, não podemos senão trocar o advérbio pelo também e talqualmente encontrar-lhe corroboração. No entanto, a afirmação, infelizmente, não diz também ser possível filosofar em grego e alemão, mas ser possível filosofar em grego e alemão. Esse fato dificulta nossa tarefa, não no-la impede.
Como já assinalamos, não nos é difícil corroborar a possibilidade do filosofar. Basta-nos concordar com ser a empresa do filósofo o filosofar, se assim o fizermos, saberemos que isso tem-se feito possível há mais de dois mil anos.  A real dificuldade está na segunda parte da afirmação. Como corroborar só ser possível filosofar em grego e alemão? Talvez não o possamos, isso ou por não sermos capazes ou pela existência de vários filósofos em outras línguas ou ainda por amor a nosso idioma. Em consideração a esses possíveis impedimentos, não tentaremos validar essa segunda parte da afirmação, mas somente compreendê-la. Em vista disso, fazemos a seguinte observação: se, conforme Heidegger, a possibilidade do filosofar só se dá por meio do grego e do alemão, isso nos leva a crer que ele considera reunirem, esses dois idiomas, características as mais favoráveis para o filosofar. Por conta do dito, deveríamos agora investigar essas pretensas características, ainda assim não o faremos. Se o fizéssemos, teríamos de abordar tanto um idioma quanto o outro e isso tomar-nos-ia demasiado tempo e desmedida energia. Mesmo assim, não podemos nos esquivar de tecer algumas considerações tanto de um quanto de outro. Com esse fim, em vez de nós mesmos empreendermos uma análise mais cuidadosa, tomaremos o testemunho de quem, eles sim, tenham empreendido um intrometimento, se não em ambos, num ou noutro deles. Com relação ao alemão, Miguel de Unamuno no Volume VI de suas obras completas, à página 768, diz: “É indubitável que a língua alemã possui grandes vantagens para a investigação filosófica. Um prefixo, de significação necessariamente vaga, uma raiz, abstrata também, e um sufixo, igualmente abstrato, (...) isso tudo permite passar de uns conceitos a outros com grande facilidade e sutileza e refinar concepções filosóficas.”[1]
Considerando Unamuno, podemos dizer que, de fato, o alemão possui características favoráveis ao filosofar. Não obstante, é-nos lícito ainda perguntar: como ele veio a possuir essas características?  Uma possibilidade de resposta a essa pergunta encontra-se na consideração acerca do desenvolvimento do idioma grego feita por Bruno Snell em seu livro “A Estrutura da Linguagem”. À página 194 desse livro, ele escreve: “Demócrito, o fundador da doutrina atômica, foi o primeiro a procurar efetuar uma interpretação natural-científica ampla do mundo. A fim de conseguir isso com a língua que lhe estava disponível, precisou eliminar algumas formas lingüísticas e ressaltar outras. Ele desenvolveu seu sistema filosófico através do uso exclusivo de todas as formas lingüísticas que fossem relevantes para a cunhagem do sentido fenomênico da “representação”.[2]
Demócrito vê o mundo de um modo antes não visto, ele, a partir dessa nova vista, procura um meio através do qual fazê-la visível aos outros. O meio que ele encontra é a língua grega, todavia, ele não a poderia tomar tal como ela se apresentava no uso ordinário, isso porque a extraordinariedade de sua nova vista requeria um uso igualmente extraordinário do meio através do qual ela viesse a se mostrar. Destarte, Demócrito procede à transformação do idioma grego. Devemos entender essa transformação não como substituição do idioma de então por outro mais rico, mas como o levar esse mesmo idioma para além da formação de então. Essa trans-formação do idioma, podemos também dizer com descobrimento. Conforme ele vai fazendo uso filosófico de seu idioma, descobre-lhe várias possibilidades, e passa a destacar e fazer uso das que interessam à mostra dessa sua nova vista. Esse processo de descobrimento do idioma grego é empreendido igualmente por outros filósofos, assim nos conta Snell. Isso tudo conduz-nos a uma ponderação: se cada pensador grego faz uso de seu idioma para mostrar o que ele vê de novo, o idioma mesmo acompanha esse movimento ganhando novas possibilidades das quais cada um deles lança mão segundo o requerimento de sua vista. Sendo assim, quando Platão começa a filosofar, encontra um idioma amplamente desenvolvido, apresentando-lhe possibilidades ganhas no concurso de uma história de transformação concomitante do idioma e do pensamento gregos. Em respeito a essa concomitância, e ao seu estudo empreendido no desenvolvimento da linguagem, Bruno Snell diz à página 12 do mesmo livro: “Por, entretanto, o desenvolvimento do falar estar unido ao desdobramento do pensar, tal estudo da linguagem conduz à autoconsciência do homem e à descoberta do espírito; (...) e se nós quisermos apreender as condições de possibilidade do pensar na linguagem, talvez haja algo que aprender do que é afinal nosso pensamento e qual o sistema sobre o qual ele se funda, nesse caminho que vai do falar primitivo até o complicado e diferenciado.[3]
Por meio das considerações anteriores, ficamos sabendo que o uso da linguagem determina as suas possibilidades de uso. Isso é-nos dito ainda por outro profundo conhecedor do idioma heleno, o professor Henrique Murachco, à página 12 de seu livro “Língua Grega Vol. I”: “ (...) Platão, Aristóteles e outros (...) transformaram-na ( a língua grega) num instrumento perfeito, para exprimir com perfeição todos os matizes do pensamento humano.” A língua grega não nasceu perfeita para uso algum, bem distante disso, o uso que o povo grego fez dela foi determinando suas possibilidades de uso. À medida que havia poetas, foram-se desenvolvendo suas possibilidades de uso poético; à medida que filósofos, as de filosófico. Cada qual contribuindo para o desenvolvimento de seu idioma.
Esse mesmo uso possibilitou ao idioma grego uma riqueza estrutural e vocabular que se confunde com a própria riqueza dos pensadores e poetas gregos. E, em verdade, há mister de haver essa confusão, pois pensar e falar, consoante Snell, em nossa concordância, estão unidos, i. e., confundidos.
Essas observações e averiguações com relação ao grego, podemos aplicá-las também ao alemão. Com esse destino, valer-nos-emos de um pensador sui generis nesse assunto de agora: Leibniz. Yvon Belaval, em seus “Estudos leibnizianos”, dedica um capítulo à relação entre Leibniz e a língua alemã. Nesse capítulo, ele diz que não só para Leibniz, senão que também para Fichte, “a superioridade da língua alemã não está em sua origem, e sim no uso ininterrupto que dela tem feito um povo.”[4]  Novamente, vemos ser o uso o determinante da melhor possibilidade de uso, nesse caso, filosófico. Há, porém, um acréscimo na precedente citação. Leibniz considera a língua alemã superior às demais no seu uso filosófico. Antes de focalizarmos essa pretensa superioridade, precisamos ainda caracterizar o gênero desse uso que o povo alemão vem fazendo de sua língua. No mesmo livro à página 28, Yvon Belaval, citando Leibniz, escreve: “ ela ( a língua alemã) é para o real, a despeito de todas as outras, a mais densa e a mais perfeita; é que nenhum outro povo cultivou com mais desvelo, durante muitos séculos, as artes concretas e a mecânica; a tal ponto que mesmo os Turcos, nas minas da Grécia e da Ásia Menor, designam os metais por nomes germânicos.”[5] O que caracteriza o uso do alemão é, então, a “concreção” e a “mecânica”. De modo a sermos mais plásticos, passaremos a dizer que o alemão, acordados por Leibniz, é um idioma concreto e mecânico e que ele o é por força de os alemães virem usando-o concreta e mecanicamente. Nesse caminho, se o idioma alemão é perfeito, ele o é para a mostra de uma vista concreta e mecânica para mundo. Melhor dizendo, assim como o uso que Demócrito faz da língua grega é determinado por sua vista para o mundo; o uso concreto e mecânico que o alemão faz de seu idioma é determinado por uma vista para o mundo concreta e mecânica. A perfeição desse idioma delimita-se por essa vista.
Chegamos aqui a um ponto muito importante, desde o qual podemos completar, para melhor compreender, a afirmação de Heidegger que vimos tematizando. Ela soa agora assim: só é possível filosofar em grego e alemão, mas em alemão só é possível filosofar concreta e mecanicamente. A seguirmos essa frase, deixamos todas as outras possibilidades do filosofar ao idioma grego. Com procedermos nessa via, o que dizermos dos outros tantos filósofos em outras quantas línguas? Eles todos são somente repetições da filosofia grega. Mesmo os alemães começaram a filosofar imitando os gregos. Nisso não pode haver surpresa alguma, pois se os gregos descobriram a filosofia e a desenvolveram à grandeza não só de um Platão, mas ainda de um Aristóteles, todos os que se pusessem a seguir-lhes a empresa haveriam de imitá-los, sem, contudo, essa imitação causar constrangimento ou desprestígio algum.
Houve um começo da filosofia na Grécia, por isso não nos incomodamos em imitar os gregos e em dizer da perfeição de seu idioma. Será, porém, que há um começo da filosofia também na Alemanha? E se há, será que nós, ao filosofarmos, imitamos não só os gregos, mas também os alemães? E se é assim, será que, como com respeito aos gregos, nós também não nos constrangemos nem nos sentimos desprestigiados por essa imitação?  
Essas são perguntas difíceis não só por requererem demais de nossa indústria, senão que por melindrarem nosso brio; não, com certeza, nosso brio patriótico, pois não há tradição milenar em idioma português, mas nosso brio, digamo-lo, romântico.
De todo modo, consideraremos a primeira das perguntas, se há um começo da filosofia também na Alemanha. Ainda não podemos saber se há ou se não há tal começo, no entanto, se supusermos haver, já sabemos que só pode ser um começo concreto e mecânico. 
O caráter concreto e mecânico do suposto recomeço da filosofia na Alemanha é questão que tratar noutro espaço e tempo. Aqui e agora podemos somente rememorar que os maiores filósofos alemães são sistemáticos, ou seja, vêem o mundo a partir de um sistema concreto organizado mecanicamente, cada ponto fazendo mover o outro de modo a o resultado desses movimentos ubíquos ser coerente consigo mesmo e com a vista a partir da qual houve precisão de seu surgimento. Há, entrementes, uma exceção: Nietzsche. Ele não se encaixa nessa descrição, isso não por falta de coerência, mas por falta de sistematização.
O que, de fato, importa a nós é saber que Heidegger só pôde dizer o que disse, porque as duas maiores tradições do pensamento são a grega e a alemã. Vimos que o uso determina a possibilidade de uso, desse modo, o constante e pungente uso filosófico nessas duas línguas transformaram-nas em instrumentos perfeitos para o filosofar. Gostaríamos, ainda, de buscar outro testemunho para a importância do uso no desenvolvimento do idioma. Nesse caso, porém, não um que enobreça a língua alemã, pelo contrário, um que mostre ser ela capaz de se transformar no oposto de qualquer nobreza possível. George Steiner escreve em seu livro “Linguagem e Silêncio” à página 137, o seguinte: “O nazismo encontrou na língua exatamente o que precisava para expressar sua selvageria. Hitler ouviu, dentro do idioma pátrio, a histeria latente, a confusão, a qualidade de transe hipnótico. Ele mergulhou certeiro para dentro da vegetação rasteira da linguagem, para dentro daquelas zonas de escuridão e de clamor que estão na infância da fala articulada e que vêm antes que as palavras se tornem suaves e provisórias ao toque da mente. Ele pressentiu no alemão uma outra música além daquela de Goethe, Heine e Mann; uma cadência áspera, metade jargão nebuloso, metade obscenidade.”[6] Outra vez, vemos do que um idioma é capaz, não só o idioma alemão ou o grego, mas qualquer um; isso é o que ainda diz, mas adiante Steiner: “Um Hitler teria encontrado reservatórios de veneno e de analfabetismo moral em qualquer língua.” É, a partir de agora, que essa discussão passa a ser realmente importante para nós, brasileiros. 
Hitler encontraria em qualquer língua veneno e analfabetismo moral, e Hegel, será que ele encontraria o Absoluto em qualquer língua? E Heidegger, será que ele encontraria o Dasein em qualquer língua? Um pouco atrás, concordamos com Snell quando ele escreve estarem o pensar e o falar unidos, de modo que ao estudar um, descobre-se o outro. Termos visto isso faz-nos perceber que se o pensar e o falar andam tão contíguos, a tradição de pensamento tanto grega quanto alemã reflete-se na língua empregada nessa tradição. Conseqüentemente, não só o Absoluto de Hegel, como também o Dasein de Heidegger são palavras nascidas de uma tradição, por seqüência elas precisam dessa tradição para serem Absoluto e Dasein. Com isso, podemos responder nossa pergunta, dizendo que nem Hegel encontraria o Absoluto em qualquer língua, nem Heidegger encontraria o Dasein em qualquer língua. Eles só encontrariam o que a tradição dessas línguas lhes permitisse, pois qualquer transformação somente é permitida pelo haver de uma formação prévia.    
Precisamos perguntar agora: o que a tradição, por exemplo, em língua portuguesa no Brasil, permitiria a Hegel e a Heidegger encontrarem? Já vimos, a linguagem é requisitada pelo que se deve mostrar e o que se deve mostrar é o que se vê, é a vista. Hegel veria algo, e procuraria mostrá-lo fazendo uso da língua disponível, e se ela não apresentasse as condições necessárias para essa mostra, ele a transformaria para a apresentação dessas condições. Isso que ele visse acabaria por se mostrar, pois ver isso é permissão da tradição do idioma português e ela não permitiria o que não pudesse ser contido em si. Com relação a essa não contenção em si, gostaríamos de mostrar o que o idioma alemão não contém em si que, opostamente, o português contém ao máximo. Quem nos revela isso é o próprio Leibniz: “Em compensação, ela (a língua alemã) é, sem dúvida, a mais imprópria para exprimir as ficções, em todo caso mais imprópria que a francesa, a italiana e as outras derivadas do latim.”[7]  Leibniz faz essa ressalva, acreditando-a ser na verdade uma vantagem. Para esse claro vidente de um mundo concreto e mecânico, sua língua não se dar às ficções é grande vantagem. Em contraponto, nós, falantes de uma língua cuja tradição tem sua grandeza justamente no que Leibniz chama de ficção, na literatura, nós obviamente não vemos o mundo nem com essa pretensamente superior concreção do idioma alemão, nem com a sua mecânica. Como é, então, nossa vista para o mundo e como, portanto, Heidegger e Hegel o veriam em português? Quem nos responde é Caetano Veloso. Ele, em sua música “Língua”, fazendo clara referência a Heidegger, diz: “- se você tem uma idéia incrível / é melhor fazer uma canção / está provado que só é possível filosofar em alemão.” Essa resposta, ainda mais provocadora que a afirmação de Heidegger, descreve o caráter do uso de nosso idioma e, logo, o modo como por ele vemos o mundo. Dentre as várias revelações dessa "resposta", destacam-se duas: fazer canção é melhor que filosofar e, em português, é melhor fazer uma canção. Caetano diz: "é melhor fazer uma canção", mas não só isso. Se fizermos o necessário paralelo com a Segunda parte da frase em que ele diz: "só é possível filosofar em alemão", devemos completar a primeira e dizer: "é melhor fazer uma canção em português".  Agora podemos entender melhor a canção a qual ele se refere, pois apenas pode ser uma que se dê no idioma português e não em notas musicais. Essa canção é a musicalidade de nossas letras. Caetano Veloso está-nos apontando o que temos feito deveras, está-nos apontando a tradição de nosso idioma. Esse seu apontamento remete-nos aos que vem forjando essa vista para o mundo, aos nossos escritores. Todas as possibilidades de nosso idioma foram conquistadas por eles, contudo eles conquistaram-nas para a escrita literária, a qual foge muito à filosófica. A principal diferença de uma a outra está em que, enquanto para o filosofar, a língua é um instrumento para mostrar algo; para o fazer literatura a língua mostra-se a si mesma. Para o filosofar a língua deve ser o mais transparente possível a fim de se ver através dela o que ela pretende mostrar, pois isso está além de sua aparência. Para a literatura, acontece o inverso, a língua deve ser o mais aparente possível a fim de se ver a própria língua, pois ela está em sua aparência. Estamos avisados de que há filósofos com estilo refinado e há poetas profundos; isso, porém, não nos contradiz. O estilo do filósofo é requerimento de sua mostra, já o vimos em Demócrito, e os limites desse estilo demarcam-se por essa mesma mostra. A profundidade do poeta é outro ornamento de seu estilo, e está condicionado à beleza desse mesmo estilo. Essa fato é de fácil verificação, basta-nos comparar traduções; há as que privilegiam a profundidade, há as que o estilo. As primeiras podem ser-nos interessantes, as segundas são-nos belas. E qual, afinal de contas, é o destino da poesia, senão a beleza?
Mesmo sabendo que a profundidade é puro ornamento no escritor, podemos ir buscar nele um pensamento, afinal o único que temos. Quiçá encontremos em Machado de Assis um grande psicólogo, como o foi Nietzsche; e em Carlos Drummond de Andrade, um grande pensador do ser, como o foi Heidegger.
 Ezra Pound em seus “Ensaios Literários” escreveu que “os artistas são as antenas da raça,”[8] ou seja, aqueles que primeiro captam o espírito do tempo e o comunicam aos demais. No caso da Alemanha, suas antenas sempre foram os filósofos, no do Brasil, os nossos escritores. Precisamos ouvi-los, em ordem a estarmos no tempo certo e conhecermos a tradição de nosso idioma. Essa é a tradição que temos e é somente a partir dela que poderemos formar outra, outra porventura filosófica. “O povo faz o idioma e o idioma faz o povo”, disse Unamuno, e completa: “cada idioma é o melhor para o povo que o fala.”[9] Precisamos deixar nosso idioma nos fazer para procedermos a fazê-lo e, no nosso caso, essa feitura toma o aspecto de transformação.
A pretensão de tornar o português em um idioma perfeito para o pensamento passa pelo obstáculo de nossa vista. Primeiro é preciso ver depois mostrar o visto, acontece que a primazia dessa vista é a do próprio meio pelo qual ela se faz ver, o idioma português. A mostra dessa vista, contudo, não é entregue, não nos é possível circunscrever o que vemos na língua e então entregá-la como um livro para outros a verem. É-nos possível, apenas, trazer os outros para o mesmo lugar desde onde se descortinae essa vista para que eles, como nós, vejam seu alcance. Portanto, falar não é nunca uma entrega, mas um convite. Desse modo, nós, por meio de nossa exposição, estamos convidando aqueles que pensam em português a atentarem ao uso feito dele por nossos escritores, e ao próprio uso de modo a descobrirmos-lhe as possibilidades de um pensar claro e eficaz.    


[1] Unamuno, Miguel. Obras Completas Vol. VI: "La Raza y la Lengua". Ed.: Vergara. 1958. Barcelona. Pg. 768: " Es indudablemente que la lengua alemana tiene grandes ventajas para la investigación filosófica. Un prefijo, de significación necessariamente abstrata y algo vaga, una raíz, abstrata también, y un sufijo, igualmente abstrato, (...) eso permite pasar de unos conceptos a otros com gran facilidade y sutileza y refinar concepciones filosóficas." 
[2] Snell, Bruno. Der Aufbau der Sprache. Claasen Verlag Hamburg, 1952. Pg. 194. "Demokrit, der Begründer der Atomlehre, hat dann als erster eine 'naturwissenschatliche' Deutung der Welt umfassend durchzuführen gesucht. Um dies mit der ihm zur Verfügung stehenden Sprache zu erreichen, mub er bestimmte Sprachformen eliminieren und andere hervorkehren: er entfaltet sein philosophisches System dadurch, dab alle die Sprachformen, die vom Sinn-Phänomen des 'Darstellens' geprägt sind, allein für ihn relevant sind."
[3] Idem, Ibidem. Pg. 12 ."Da nun aber die Entwicklung des Sprechens an die Entfaltung des Denkens geknüft ist, führt solche Sprachbetrachtung auf das Selbstbewubtsein des Menschen und auf die Entdeckung des Geistes (...), und wenn wir an der Sprache die Bedingungen der Möglichkeit des Denkens begreifen, ist auf diesem Weg von dem ursprünglichen zum komplizierten und diferenzierten Sprechen vielleicht auch etwas darüber zu lernen, was unser Denken eigentlich ist, welches geheime System ihm zugrunde liegt."              

[4] Belaval, Yvon. Études leibniziennes. Ed.: Gallimard. 1976. Pg. 35. "(...) la superiorité de la langue allemande ne tient pas à son origine, mais à l'emploi ininterrompu que en a été fait par un peuple."
[5] Idem, Ibidem. Pg.: 28 "(...) elle est, pour le réel, à l'envi de toutes les outres, la plus dense e la plus parfaite; c'est qu'aucun peuple n'a clutivé avec plus de soin, depuis de nombreux siècles, les arts concrets et mécaniques; à tel point que les Turcs eux-mêmes, dans les mines Grèces et d'Asie Mineure désignent les métaux par des noms germaniques."
[6] Steinar, George. Linguagem e Silêncio. Trad.: Gilda Stuart e Felipe Rajabally. Ed.: Companhia da Letras. 1988. São Paulo. 
[7] Belaval, Yvon. Études leibniziennes. Ed.: Gallimard. 1976. Pg.: 29: "En revanche, elle est sans doute la plus impropre à exprimer les fiction, en tou cas plus impropre que le français, l'italian et autrs rejetons du latin;"

[8] Pound, Ezra. Literary Essays of Ezra Pound. Ed.: Faber and Faber Limited. London. Pg. 58.: "Artists are the antennae of the race."
[9] Unamuno, Miguel. Obras Completas Vol. VI: "La Raza y la Lengua". Ed.: Vergara. 1958. Barcelona. Pg.: 176." El pueblo hace el idioma y el idioma hace el pueblo" (...) "todo idioma es el mejor para el pueblo que lo habla."

domingo, 12 de junho de 2011

“Até que a morte vos separe”




            Ouvimos a frase e já nos rimos de sua antiguidade. Houve um tempo em que ela tinha seu lugar, mas há muito foi banida. Hoje a achamos ridícula, e talvez tenhamos razão. Tenhamos também, contudo, ainda um pouco de hospitalidade e perguntemos: “-Por que esta frase soa agora tão ridícula?” Ora, ela é uma frase tradicional e participou da felicidade de muitos e manteve outros tantos sob a necessidade de, ao menos, aparentarem felicidade. Ela não é, portanto, uma frase qualquer.
            Com não ser uma frase qualquer, qual a sua distinção? Ela é dita pelo padre na ora em que abençoa a união de um homem e uma mulher, união que, de acordo com ela, deve ser eterna. A frase é uma benção. Ela incumbe o casal da responsabilidade de manter-se junto em todo o momento, só se separando com a morte de um ou outro. O casal aceita essa incumbência e, com ela, a responsabilidade. Mas aceita sabendo que responsabilidade é essa?
            Esperemos ainda um pouco para chegarmos a qualquer resposta. Tomemos a situação em que a frase é dita; não, ainda melhor, vamos um pouco atrás e vejamos o que faz o casal chegar diante do padre para dele ouvir: “ – Até que a morte vos separe”.
            Um dia, um homem e uma mulher se conhecem. De cara, um acha o outro interessante, ou não. De qualquer modo, eles se conhecem e, sabe-se lá por que, passam a namorar. Daí eles se tornam íntimos, conhecem-se melhor e tomam a partir do que conhecem um do outro e a partir do que conhecem de si mesmos, tomam a decisão de se casar. Vão então para diante do padre e ouvem a frase: “- Até que a morte vos separe”.
(antes de continuar, gostaria de observar-lhes que esse “vão então para diante do padre” não quer necessariamente dizer vão então para diante do padre. Pode ser que não haja padre, que não haja pastor, que não haja rabino, que não haja quem diga a frase, mas ela continua ali onde os dois se comprometem e, mesmo não ouvida, ainda assim é o que orienta a união dos dois).
            Como estava dizendo, eles vão e ouvem a tal frase, e concordam com ela. Aliás, concordaram com ela desde que se decidiram pelo casamento. Sendo assim, o importante é essa decisão, e como nós sabemos, ela foi tomada a partir do que os dois conheciam um do outro e um e outro de si mesmos. Importa-nos, portanto, saber o que é isso que eles conheciam.
            O que passa pela cabeça de alguém que decide se casar é mais ou menos o seguinte: “- Bem, conhecendo-o como o conheço, posso muito bem casar-me com ele”; e assim também pensa o homem com relação à mulher. Com isso, casa-se cada um com uma pessoa que conhece e só se casa porque a conhece. Os dois, portanto, são sinceros. Entre pensar tal como supus acima que pensassem e tomar a decisão de se casar há ainda um pensamento que se não é tido provavelmente causará problemas a quem não o teve, porque há um lugar certo para ele: “- Se ele continuar sendo o que ele é e eu continuar sendo o que sou, nós nunca nos separaremos”. O problema é que, embora tenha ele um lugar privativo entre o achar que pode casar-se e a decisão de casar-se, ainda assim esse pensamento raramente ocupa esse lugar. Pois se ele toma seu lugar, surge o cuidado principal para um casamento: a necessidade de um e outro continuarem sendo o que são um para o outro. Apesar disso, se não há tal pensamento, não há consequentemente tal cuidado e dificilmente há casamento duradouro.
            Os casamentos não duram e isso não é só de hoje, o que agora acontece é que todos veem que eles não duram, mas o homem é um só em todo o tempo e em todo o lugar. O que ora acontece é os olhos verem o que há muito se escondia sob aparências: a falência matrimonial. E não é precisamente essa falência o que fez a nós, homens do presente, parecer ridícula a frase “até que a morte vos separe”? Sim, os casamentos dissolvem-se e a frase perde seu sentido. Ah! Que engano, muito pelo contrário, seu sentido afirma-se aí em toda a sua precisão.
            Quando os dois decidiram se casar partindo do que conheciam um do outro e não levaram em consideração o que não conheciam, ou seja, que um e outro poderiam deixar de ser o que eram, e isso principalmente se ambos não cuidassem em manter-se um para o outro e cada qual para si o que eles eram, se não houve tão consideração e nem o cuidado, não há surpresa se de repente um casal extremamente apaixonado e feliz dissolve-se em desavenças e, quem sabe, em ódio.
            O que houve, aliás, o que não houve? Não houve a consideração, não houve cuidado. Primeiro não consideraram o que um não conhecia do outro, e depois não cuidaram em manterem-se os mesmos um para o outro e cada qual para si. Amaram-se e foram sinceros em seu amor, prometeram e foram sinceros em sua promessa, mas descuidaram-se e foram sinceros com a decadência de seu amor e de sua promessa.
            A frase permanece e é profética: “até que a morte vos separe”. Um ou outro acaba por morrer quando por descuido deixou de ser o que era tanto para si quanto para o outro. “-Ele não é mais o mesmo”; “- Ela não é mais a mesma”; “- Ele morreu para mim”; “- Ela morreu para mim”, e a morte os separou. 

domingo, 5 de junho de 2011

Escuridão e caos: sítios da linguagem









Nenhuma língua pode descrever com rigor e precisão como todo e qualquer acontecimento se dá, ou como todo e qualquer pensamento, impressão, interpretação de realidade se dão.

El hombre (...) no ve, ni oye, ni toca, ni gusta, ni huele más que lo que necesita para vivir y conservarse. Si no percibe colores ni por debajo del rojo ni por encima del violeta, es acaso porque le bastan los otros para poder conservarse. Y los sentidos mismos son aparatos de simplificación, que eliminan de la realidad objetiva todo aquello que no nos es necesario conocer para poder usar de los objetos a fin de conservar la vida. En la completa oscuridad, el animal que no perece, acaba por volverse ciego.”

Do mesmo modo que “los sentidos mismos son aparatos de simplificación”, a língua de que nos valemos cotidianamente é um aparelho de simplificação. Ela não é, contudo, imperfeita. Sua suposta imperfeição é verificada quando se tem a pretensão de usá-la para além de suas possibilidades, assim como aconteceria se intentássemos ver para além do que nossa vista alcança. Está certo que a ciência em geral tenta criar aparelhos que, a princípio, complementariam os sentidos, tornando-os mais agudos e mais abrangentes; entretanto, isso não significa que eles, com o auxílio da ciência, deixem de ser aparelhos de simplificação, muito pelo contrário, é justamente aí que eles se investem de sua maior possibilidade de simplificação, pois vêem mais do mesmo, ouvem mais do mesmo, tocam mais do mesmo, cheiram mais do mesmo, falam mais do mesmo. A tarefa primordial dos sentidos, conservação da vida, mesmo na idade da ciência, não é posta de lado, ela apenas exige complementações. Mesmo novas linguagens foram criadas para suprir essa nova necessidade. A linguagem computacional em geral simplifica ainda mais a realidade em a reduzindo a dois dígitos, o 0 e o 1. Essa linguagem chama-se binária e é a da qual se valem os computadores para a realização de suas tarefas. Apenas se pode dizer que os sentidos sejam imperfeitos, quando não se têm bem claros os limites de uso deles. Se só se pede o que está dentro dos limites de possibilidade, por exemplo, do olfato, pode-se dizer que ele é perfeito. Se se espera ter olfato tão sensível quanto o de um cão, só aí se pode dizer ser o olfato imperfeito. Contudo é meu desconhecimento dos limites do olfato que me faz pensar assim. Quanto à língua, se pedimos a ela que seja mais do que é, só aí a consideramos imperfeita. Ela se limita a dar as ferramentas de descrição da realidade. Se pretendemos explicitar algo além da realidade tangível, ou seja, além da simples conservação da vida, então ela pára e mostra-se como uma ferramenta inadequada.  “A língua é para a filosofia, o que ela é para a música e para a pintura, de modo algum o meio correto de apresentação”. [1] Do mesmo modo que não esperamos que alguém pinte com palavras, não podemos esperar que alguém pense com palavras. O pensamento se dá como reconhecimento mudo. A tentativa de expressão desse pensamento, ela sim, só pode ser feita através das palavras de uma determinada língua, mas a apreensão do pensamento que elas encerram só é possível num reconhecimento do lugar de onde tal pensamento emerge. Mesmo na filosofia não se pode dizer que a língua seja imperfeita. Ela nunca pode, está fora de seus limites, o pensamento. Quem vê imperfeição nalguma língua para o pensamento não conseguiria apreender o pensamento ainda que ele se desse primordialmente nas palavras dessa língua. “A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,” [2] e enquanto disfarçado, o pensamento exige grande intimidade para ser reconhecido. Nesse sentido, também a poesia é disfarce. O que está disfarçado aí é algo ainda mais grave, mais surdo e mais mudo que o pensamento. Quem dá testemunho disso é Chico Buarque em sua música Choro Bandido quando diz que “(...) mesmo que você fuja de mim / por labirintos e alçapões / saiba que os poetas como os cegos / podem ver na escuridão” [3]. É na escuridão de luz, som, toque, gosto e odor que o poeta vê. Apenas habitando nessa mesma escuridão é possível ver tal como o poeta, e, portanto, reconhecer o que a escuridão resguarda. Talvez descubramos então que o que se resguarda fundo na escuridão seja a possibilidade mesma de toda e qualquer linguagem, seja a poética, seja a filosófica, e seja até a binária. Por esse motivo, o modo de encarar a linguagem, mesmo a ordinária, nunca é ordinário, pois para o poeta,

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
Os sítios escuros onde nasce o
‘de’, o ‘aliás’
o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.


            O que Chico Buarque chama de escuridão é o mesmo que Adélia Prado chama de caos. Em ambos os casos, a apreensão do que se vela no escuro e do que se dispersa no caótico nos envolve de susto e terror; e se, deveras, ficamos assustados e aterrorizados é porque começamos a ver a escuridão. Ver a escuridão no caos, safar-se do caos na escuridão significa demorar onde é possível apreender a linguagem em seus próprios termos, que sempre se dão silenciosamente. “Pois a beleza é aquele grau do terrível que ainda conseguimos suportar” [4]. A linguagem possível do caos e da escuridão é sempre dolorosamente terrível, pois sempre bela. Ela nos remete à escuridão, ao caos; e se não nos escurecemos de terror nem nos perdemos no terrível, é “porque o belo, sereno, desdenha nos destruir” [5].

A poesia é essa linguagem terrível, é fronteira com sagrado, depois da qual só os Anjos habitam e, aí, mesmo se eu “gritasse (...) e mesmo que de repente um deles me acolhesse no coração: sucumbiria à sua existência mais forte” [6].

            Aqui há o que antes chamei de reconhecimento mudo. O pensamento, disse, não se dá em palavras, mas num reconhecimento mudo. As palavras apenas são um veículo de alusão a esse silêncio, são disfarces dele. Primeiro Chico Buarque se reconhece em Adélia Prado quando ambos falam do lugar desde onde surge a linguagem, que o primeiro chama de escuridão, e a segunda de caos. Depois é a vez de Rilke e Adélia Prado se reconhecem. O “acolher no coração do anjo” de Rilke é o mesmo que “entender Deus” da Adélia Prado, e o “sucumbir à existência mais forte do anjo” dele é “o morrer frente ao entendimento da linguagem” dela. A habitação no mesmo solo escuro e caótico é o único modo possível de pensamento, pois se dá no reconhecimento entre pensadores e poetas e no reconhecimento do que se vela na escuridão e do que se abriga no anonimato do caos. Nesse texto, Unamuno, Chico Buarque, Adélia Prado e Rilke vêem no escuro e ordenam sua poesia a partir do caos. Nesse sentido, também o pensador Nietzsche pode ser chamado, quando ele escreve que “é preciso ainda ter caos em si para poder gerar uma estrela dançante”. [7] A estrela que brilha a partir do caos deve seu brilho a essa proveniência e só brilha para quem a reconhece em seu próprio caos interior.

 O poeta, assim como o pensador, procura lançar luz sobre a escuridão e dar nome ao caos, mas o mais que pode é arrastar a nós com sua poesia a essa mesma escuridão para que nós mesmos possamos ver; e a esse caos para que nós mesmos percamos nossos nomes, pois só assim poderemos habitar a linguagem silenciosa e anônima na qual todos já habitamos sem jamais reconhecer.





[1] “Die Sprache ist für die Philosophie, was sie für Musik und Malerei ist, nicht das rechte Medium der Darstellung. 1275”. Novalis. Disponível em  http://gutenberg.spiegel.de/novalis/fragment/philolog.htm. Acesso em: 12 Mar. 2003.
[2] Prado, Adélia. Poesias reunidas. São Paulo: Siciliano, 1998.
[3] De Holanda, Chico Buarque. Choro Bandido, In: Paratodos.São Paulo: BMG, 93.
[4] Rilke, Rainer Maria. Die Erste Elegie. In: Duiniser Elegien: „Denn das Schöne ist nichts
als des Schrecklichen Anfang, den wir noch grade ertragen.“
Disponível em http://gutenberg.spiegel.de/rilke/elegien/duineser.htm.  Acessado em 03/05/2006

[5] Idem, ibidem: „weil es gelassen verschmäht, uns zu zerstören“.
[6] Idem, ibidem: „(...) wenn ich schriee (...)und gesetzt selbst, es nähme
einer mich plötzlich ans Herz: ich verginge von seinem
stärkeren Dasein“.

[7] Nietzsche, Friedrich: Werke und Briefe: Zarathustras Vorrede. Friedrich Nietzsche: Werke, pg. 6300
(Cf. Nietzsche-W Vol. 2, pg. 284) (c) C. Hanser Verlag: man muß noch Chaos in sich haben, um einen tanzenden Stern gebären zu können. Programa disponível em



sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Amor verdadeiro

Vimos um caso interessante nos últimos dias. Uma professora foi presa acusada de estupro presumido. Ela teria tido relações sexuais com uma aluna de treze anos. Há aí dois delitos: um criminal outro ético. No Brasil a idade de consentimento sexual é de quatorze anos. Isso quer dizer que apenas com quatorze anos o adolescente pode consentir em ter sexo, seja com outro adolescente seja com um adulto. Quando há sexo entre um adolescente de treze anos e alguém com uma diferença de idade de cinco anos ou mais, há o que se chama estupro presumido. Isso quer dizer que não importa se há ou não consentimento, o indivíduo com cinco anos a mais deve responder criminalmente. A garota era aluna, disso resulta um delito ético. Nesse caso não importa tanto a idade da aluna, pois ainda que as amantes tivessem a mesma idade, a relação aluna professora teria sido pervertida. 
Por mais interessante que pareça esse episódio, não é o ponto legal nem o ético que quero abordar, mas o psicológico. Na sequência do episódio, naturalmente psicólogos foram consultados pelas redes de televisão para darem suas opiniões sobre o caso. Chamou-me a atenção particularmente o que disse uma psicanalista. A garota disse amar a professora e prometeu esperar por ela não importa quanto tempo ela ficasse presa. Analisando isso, a psicanalista disse que ela não ama de verdade, pois não é capaz disso em sua idade. A tal psicanalista nem se refere à peculiaridade da relação, isto é, da relação entre uma mulher de uns trinta anos, professora, e uma garota de treze, aluna. Ela se refere apenas à garota, pois na idade de treze anos, ela não seria capaz de medir as consequências dos atos desencadeados por seu presumido amor, portanto, conclui a psicanalista, ela não ama. Gostaria que a senhora psicanalista me explicasse a relação entre medir consequências de atos e amar. Quando uma pessoa apaixonada consegue medir adequadamente a consequência de seus atos? Ora, se ela conseguir fazer isso de modo adequado, podemos dizer que se trata de uma pessoa estóica, ou seja, de uma pessoa capaz de controlar suas emoções racionalmente de modo a ser sempre comedida e ponderada em suas escolhas e atos. Isso, felizmente, não existe. Tal aberração, caso existisse, seria algo como um psicopata capaz de amar arrependido justamente de amar. Ou seja, como disse, algo que não existe. É apenas nessa idade ou no "ambiente psicológico" criado por essa idade que o amor em sua agudeza é possível. O amor que não mede consequências, o amor que não teme a morte, o amor louco dos sóbrios, o amor de Julieta. Ela, a personificação mais completa do amor, tinha precisamente treze anos quando morreu de amor e por amor. Ela representa o amor pleno, e todo e qualquer amor que se tem depois desse é mera sombra do primeiro. Depois de as restrições aparecerem, depois que aprendemos a ser consequentes, esse amor, em seu vigor, já não é mais possível. Depois temos medo não só da família, mas também dos outros, do mundo, do futuro. Somos já pessoas responsáveis e não podemos mais amar completamente. Às vezes, entretanto, acontece tal amor em pessoas mais velhas. Elas enchem a cara quando não correspondidas, tentam o suicídio, e todos as consideram loucas; elas brigam, discutem, largam tudo quando correspondidas, e todos as consideram loucas. Tanto num caso quanto noutro, todos dizem: como um adulto é capaz de amar como se tivesse treze anos? Ora, isso é loucura. De fato, amar inconsequentemente é loucura. Fiquemos com nossas consequências e deixemos o amor para os contos de fadas de nossas memórias frustradas.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Juíza: operação no Alemão é "verdadeira enganação"


Portal TerraAna Cláudia Barros
"Uma verdadeira enganação". Esta foi a definição encontrada pela secretária do Conselho Executivo da Associação de Juízes para a Democracia (AJD), Kenarik Boujikian Felippe, para a resposta das forças de segurança à onda de violência no Rio de Janeiro. A magistrada, que é titular da 16ª Vara Criminal de São Paulo, considera equivocada a maneira como o tráfico de drogas está sendo combatido. Para ela, só a base da pirâmide está sendo atingida.
"O que se vê é a prisão dos pequenos. Para se ter um efeito real, é preciso combater os que estão lá em cima. Os de baixo são substituíveis", afirma, destacando que "a ponta de cima" é o empresário que ganha muito dinheiro com o tráfico. "Esse é intocável".
A juíza condena ainda os casos de violação de direitos humanos que começam a vir à tona após as ocupações, sobretudo, do complexo do Alemão, e o tratamento que parte da imprensa tem dado às operações policiais. Os dois assuntos foram alvos de críticas da AJD, que, no início da semana, divulgou nota repudiando "a naturalização da violência ilegítima como forma de contenção ou extermínio da população indesejada e também com a abordagem dada aos acontecimentos por parcela dos meios de comunicação de massa que, por vezes, desconsidera a complexidade do problema social, como também se mostra distanciada dos valores próprios de uma ordem legal-constitucional".
- O papel da imprensa é trazer dados, informações para que as pessoas reflitam. Se você não mostra os fatos sob o ângulo da violação - que, infelizmente, está acontecendo -, se você vende uma imagem de que aquilo é uma solução, faz um desserviço.
Confira a entrevista.
 Por que a AJD decidiu se manifestar?
Kenarik Boujikian Felippe - Em razão de seus propósitos institucionais. Só tem sentido a associação se manifestar nesse contexto. Entre as finalidades da associação, uma organização de juízes criada em 1991, está a questão dos valores do Estado Democrático de Direito. Foi dentro dessa perspectiva que a gente resolveu se manifestar. Em razão ainda de o problema não ser um fato novo. Há alguns anos, o Exército ocupou os morros no Rio de Janeiro. Naquela época, a associação se manifestou, tendo em vista que havia um desvirtuamento da função do Exército.
Hoje, há uma nova coloração, outros envolvidos, alguns fatos se alteraram. A associação não pode ver violações de direitos ocorrendo - e que isso possa ser encarado de forma positiva, como a imprensa tem mostrado -, e não fazer nada.
Na verdade, é necessário que o Estado cumpra seus papéis. É necessário que ele garanta os direitos fundamentais, e a segurança pública é um direito fundamental. Só que isso deve ser garantido sem que se cometam violações.
Na nota, a associação critica a atuação de parte da imprensa. O argumento é que estaria omitindo a violência policial.
Estão omitindo e não estão trazendo uma reflexão sobre os fatos. O papel da imprensa é trazer dados, informações para que as pessoas reflitam. Se você não mostra os fatos sob o ângulo da violação - que, infelizmente, está acontecendo -, se você vende uma imagem de que aquilo é uma solução, faz um desserviço.
A que a senhora se refere exatamente?
Em síntese, o que a imprensa está noticiando é que isso (Estado policial) vai resolver o grande problema que existe no Rio. E é uma situação mais complexa, que não vai se solucionar com a entrada da polícia, do Exército, da Aeronáutica e o que mais seja. Tem que haver um projeto de país, de comunidade, de estado, de município e o que existe é uma verdadeira enganação. E a imprensa está corroborando para isso, ao invés de ajudar a melhorar a situação, ajudar a resolver efetivamente o problema grave que existe no Rio e que tem uma população que está submetida à violência do Estado, submetida à violência das milícias e de pessoas envolvidas no mundo da criminalidade... A população é quem sofre e vai continuar sofrendo e o problema não vai se resolver.
Ou o Estado "ocupa" aquele território, e ocupar não significa colocar um imóvel onde vão ficar policiais. Ocupar no que diz respeito à função própria do Estado: colocar vários postos de saúde, urbanizar, cuidar do saneamento básico. Isso é uma coisa que leva tempo. 
Fora isso, é preciso combater a criminalidade, mas de forma séria. O que se vê é a prisão dos pequenos. Para se ter um efeito real, é preciso combater os que estão lá em cima. Os de baixo são substituíveis.
Quando a senhora fala dos "que estão em cima" quer dizer aqueles que não vivem nas favelas, mas nas áreas nobres?
Que não vivem nos morros, mas ganham muito dinheiro com o tráfico de drogas. E onde está esse dinheiro? O tráfico é um mercado poderoso, mas não para aqueles que estão ali embaixo. São empregadinhos. E digo que são descartáveis. Hoje, são presos 100. Amanhã, entram mais 100. A polícia tem que agir, investigando de onde vem, para onde vai o dinheiro, qual é a fonte.
Então, na avaliação da senhora, o combate ao tráfico no Rio está sendo feito parcialmente, apenas de um lado?
Do lado mais baixo da pirâmide que envolve o tráfico. O que estão "lá embaixo" são o que chamamos de aviões, mulas, pequenos vendedores. A ponta de cima é o empresário que ganha muito dinheiro com isso. Esse é intocável. A imprensa não usa uma linha para sequer explicar e vende a ilusão para a população de que o problema está sendo resolvido.
Em relação às últimas operações policiais realizadas no Rio de Janeiro, quais os erros e acertos na avaliação da senhora?
Acertos? Sinceramente, não consigo enxergar os acertos. Não consigo enxergar que a violação de algum direito fundamental possa ser acerto. Eles partem de que pressuposto? Que os policiais podem invadir as casas. Meu Deus, não é possível! Ou respeitamos a Constituição ou não.
Na nota, a associação foi bem dura, ressaltando que, ao violar a ordem constitucional, o Estado perde a superioridade ética que o distingue do criminoso. Fica igualmente à margem.
Todos nós somos atingidos por isso. Quando abro uma exceção de violação de um direito, não estou violando só para aquele proprietário da casa na favela X, Y. Na verdade, a violação é de todos nós. Admito a violação, só que não podemos ser ingênuos de imaginar que esse Estado vai atingir outra população. A violação direta é só para um tipo de população, a mais pobre, a mais vulnerável. Vai me dizer que eles vão fazer alguma coisa do gênero em algum outro local? Não vão.
Vamos falar bem claramente: vão fazer uma busca e apreensão... Nem busca e apreensão. Vão simplesmente entrar na minha casa, derrubar a porta para ver se há alguma arma ou droga? Não vão fazer isso. Eu moro nos Jardins, aqui, em São Paulo. É seletivo. Então, "só pode ser o pobre o grande inimigo do Brasil", e as coisas não são assim. O que me incomoda muito é que a imprensa reforça uma ideia que não tem o mínimo de veracidade, o mínimo de racionalidade.
O que exatamente?
Toda essa política de que vão entrar lá (no complexo do Alemão) e resolver o problema, sendo que ele continua. E não é só no complexo do Alemão. Isso não é algo que se resolve a curto prazo. Uma investigação séria demanda um certo tempo, mas é necessário começar. Quem está ganhando tanto dinheiro com o tráfico? 
Tem que haver essa vertente de polícia, de criminalidade. Acho que tem que haver mesmo, mas não nesse patamar que estão colocando, que é absurdamente ridículo. O problema não vai terminar nem diminuir. Estão vendendo uma imagem de que estão resolvendo o problema e é mentiroso isso.
Qual seria o caminho mais apropriado?
São dois caminhos básicos. De um lado, o Estado ocupa o território no sentido de fazer as políticas que lhe competem dentro daquela comunidade. Tem que ter uma cultura a ser criada e se cria essa cultura através da garantia dos direitos. Educação, saúde... Quando digo educação, refiro-me a um projeto para aqueles jovens. Qual expectativa que eles podem ter de trabalho? É preciso investir nisso. É uma algo a longo prazo, mas é preciso começar já. Estamos atrasados.
Ao mesmo tempo é preciso ter uma política referente à área criminal que seja efetiva. Hoje, eles podem prender mil. São pessoas consideradas socialmente descartáveis. Amanhã, haverá outros mil para fazer a mesma coisa. Agora, se você "quebrar" quem tem o dinheiro, quem está lucrando com isso, aí se pode haver outra perspectiva. O que me incomoda é que a política adotada não é séria e tem a seguinte caracterísitica: viola os direitos da Constituição.
Como a AJD está acompanhando as denúncias de violação aos direitos humanos nas favelas ocupadas pelas forças policiais?
Agora é que elas estão começando a aparecer. Na verdade, a imprensa ficou vários dias jogando confete para as ilegalidades. Lá no Rio, há várias organizações que estão começando a receber uma série de informações. Não dá para desconsiderar toda essa realidade. É preciso que se dê andamento. Até no Judiciário mesmo.